Imagem de abertura do artigo sobre os sentidos da mudança na Educação.

Penso que deve haver tantos defensores do nosso atual sistema educacional quantos são os defensores da corrupção…

É lugar-comum: ninguém defende a corrupção — pelo menos não publicamente —, e ninguém defende que as coisas permaneçam como estão na Educação brasileira.

Todos concordam: a coisa não vai bem na Educação no Brasil.

Os resultados das avaliações educacionais mostram que ainda temos um enorme desafio pela frente. E indicadores como o Inaf, que procura identificar os níveis de alfabetização funcional da população, mostram que uma parcela muito pequena dos brasileiros alcança o nível considerado proficiente. Na edição de 2024, apenas 10% da população de 15 a 64 anos foi classificada nesse nível.

Por isso, não temos praticamente ninguém defendendo que não se mexa no sistema educacional do país.

Ele está enfermo, ninguém discorda.

Mas esta concordância geral começa a se desfazer quando se trata de diagnóstico e tratamento.

O passado era melhor?

A maioria da população, aí incluídos pais, professores e gestores educacionais, parece acreditar que no passado tivemos uma boa Educação no Brasil, mas que, com o tempo, ela foi se degradando até chegarmos ao quadro atual.

O sistema educacional brasileiro precisaria, então, mudar para recuperar uma excelência perdida. Para isso, deveria voltar-se para esse passado tido como modelo e reinserir antigas práticas abandonadas ou desprezadas: uma disciplina mais rígida, provas mais exigentes e reprovação mais frequente, que leve ao temor de “repetir de ano”.

O problema com esse diagnóstico é que os indicadores educacionais históricos simplesmente não sustentam a ideia de que a Educação brasileira era melhor no passado.

Se olharmos para o acesso à escola e para a alfabetização, por exemplo, encontramos justamente uma trajetória de avanço e expansão.

Entre as pessoas de 15 anos ou mais, a taxa de analfabetismo era de 50,6% em 1950. Em 2000, havia caído para 13,6%.

Também avançamos enormemente na universalização do acesso à escola. Em 2019, 99,7% das crianças e adolescentes de 6 a 14 anos estavam escolarizados, percentual próximo da universalização.

Isso não significa que a Educação brasileira tenha atingido um patamar de qualidade satisfatório. Longe disso.

Significa apenas que os dados contestam essa suposição de degradação contínua de um sistema que teria sido muito melhor no passado.

Aliás, quando começamos a dispor de avaliações capazes de acompanhar a aprendizagem ao longo do tempo, a história também se mostra mais complexa do que a simples narrativa de uma decadência.

O Saeb, a partir de sua reestruturação metodológica em 1995, passou a permitir comparações dos resultados ao longo dos anos.

Essas comparações não mostram uma trajetória uniforme de piora. Há inclusive avanços em determinados períodos, etapas e áreas

O que elas não autorizam é a conclusão simples de que “antigamente a Educação era melhor”.

O mundo mudou. A escola também precisa mudar?

Um número mais reduzido de pais, professores e gestores educacionais faz outro diagnóstico e propõe outro tratamento.

Apontam para as grandes transformações acontecidas entre a segunda metade do século passado e o início deste século para afirmar que o mundo mudou muito e, por isso, a Educação precisa mudar.

O sistema educacional foi estruturado em um determinado contexto histórico, para responder a determinadas necessidades sociais. Mas a sociedade mudou profundamente.

A economia mudou.

A tecnologia mudou.

A circulação da informação mudou.

As relações de trabalho mudaram.

A maneira como produzimos, compartilhamos e acessamos conhecimento mudou.

E, mais recentemente, uma pandemia alterou profundamente a experiência educacional de milhões de pessoas.

É, portanto, para se adequar a uma nova realidade que já está aí que o sistema educacional precisaria ser transformado, de forma a preparar melhor crianças, adolescentes e jovens para o mundo atual e para aquilo que podemos antecipar do futuro.

Segundo essa perspectiva, seria preciso investir em novas formas de ensinar e aprender, novas metodologias e, muitas vezes, novas tecnologias.

A proposta realmente tem fundamento.

É inegável que o mundo de hoje é bem diferente daquele em que pais, professores e gestores atuais tiveram sua educação formal.

E não foi apenas o advento da internet a provocar isso.

A nova realidade global, as transformações econômicas, os avanços tecnológicos e as mudanças sociais nos colocaram em uma situação bastante diferente daquela de algumas décadas atrás.

E não é só no Brasil que vemos sinais dessa inadequação da escola ao mundo atual.

Países com sistemas educacionais que apresentam resultados muito melhores que os nossos também estão discutindo e experimentando mudanças, percebendo que para manter a qualidade do ensino não podem continuar a fazer o mesmo que faziam até recentemente

Mas há ainda uma terceira possibilidade.

Mudar para construir o futuro

Mas há um terceiro grupo que pode até discordar do primeiro e concordar parcialmente com o segundo.

Para esse grupo, a saída não está no passado, mas também não se restringe a adaptar os métodos de ensino a uma nova realidade.

Esse grupo olha principalmente para um futuro.

Não um futuro para o qual inexoravelmente estaríamos todos caminhando.

Mas um futuro desejado.

Para essas pessoas, a Educação precisa mudar não apenas para se ajustar a uma sociedade diferente daquela do passado recente, mas para ajudar a construir uma nova sociedade, orientada por outros valores e objetivos.

São os que desejam que a Educação esteja a serviço de um projeto futuro de país e de mundo.

Um projeto em que a eficiência da Educação não esteja apenas em entregar à sociedade pessoas que se encaixem bem no presente em que estamos, mas também agentes capazes de empreender mudanças que nos levem a uma sociedade menos desigual, mais harmônica com o planeta e orientada para o bem-estar compartilhado com todos.

Profissionais da mudança.

Cidadãos de um novo mundo.

Gente que se realiza pensando, criando, colaborando, aprendendendo continuamente e participando da construção de coisas que ainda não existem.

Gente que não seja preparada apenas para encontrar seu lugar em um mundo pronto, mas também para ajudar a transformar esse mundo.

E talvez seja aqui esteja a questão mais importante.

Não basta perguntar:

“Precisamos mudar a Educação?”

Se concordamos que sim, precisamos fazer uma pergunta anterior a qualquer escolha de método, tecnologia ou metodologia:

“Para quê queremos mudar?”

Porque a resposta a essa pergunta determina, em grande medida, que Educação vamos procurar construir.

E você?
Para que acredita que precisamos mudar a Educação?

Por favor, fique à vontade para responder no meu Whatsapp para a gente conversar mais sobre isso…

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